USE SEMPRE O CINTO DE SEGURANÇA, INCLUSIVE, NO BANCO DE TRÁS DO CARRO. CIRCULE TAMBÉM DE DIA COM OS FARÓIS BAIXOS LIGADOS. SE BEBER, NÃO DIRIJA. ULTRAPASSAGENS IRREGULARES SÃO A GRANDE CAUSA DOS ACIDENTES NAS ESTRADAS. NÃO ULTRAPASSE NUNCA COM FAIXAS CONTÍNUAS. PODERÁ CAUSAR A MORTE DE OUTRAS PESSOAS, A SUA E A DE QUEM FOR NO CARRO COM VOCÊ. TENHA PACIÊNCIA. VIAJE SEMPRE E MUITO E VISITE E CONHEÇA AS BELEZAS TURÍSTICAS DO BRASIL
Coluna Fernando Calmon
Nº 1.421 — 2/10/2026
Desafios e impactos de mais
etanol na gasolina brasileira

Possível aumento do teor de etanol anidro na gasolina para até 35% (E35) ampliou o debate entre engenharia automobilística, política energética e mercado consumidor. Desde julho último, foi autorizada uma fase de testes de seis meses, prorrogável por mais seis, de 30% para 32% e já provocou reações negativas por parte da indústria automobilística. Argumentação do Governo Federal foi de minimizar efeitos da guerra do Oriente Médio, embora o Brasil importe apenas cerca de 15% da gasolina consumida.
Não houve análise aprofundada de reflexos da nova mistura na frota circulante a exemplo de dificuldade de partida nos dias frios de modelos mais antigos, das motocicletas de menor cilindrada e também dos importados que em geral aceitam E10. Neste último caso há alguma flexibilidade, mas não em um teor mais de três vezes superior. O aumento para 35% exige readequações nos sistemas de alimentação e gerenciamento do motor.
Há risco de ressecamento de juntas e mangueiras, além de formação de depósitos nos injetores. Outros pontos críticos são partida a frio e dirigibilidade na fase de aquecimento. Anfavea alerta para a necessidade de testes de durabilidade e homologação rigorosos, antes da adoção irrestrita de E35.
Para a frota de veículos flex (80% do total), o impacto é compensado pela capacidade da ECU (Unidade de Comando Eletrônico) de adaptar tempo de injeção e avanço de ignição via sensor de oxigênio (sonda lambda). Como o etanol entrega cerca de 30% menos energia por litro que a gasolina pura, altera a paridade econômica na hora de abastecer.
Por outro lado, há opinião alarmista de que na fiscalização diretamente nos postos a medição do teor de etanol (teste da bureta) e da massa específica (teste do densímetro) possam não detectar fraudes. Necessário que a ANP, já atrasada, atualize as especificações e certamente o fará. Já a medição da octanagem, mais complexa e importante, sempre se conclui em laboratório e não nos postos.
Transição para E35 consolida o biocombustível como pilar de mobilidade sustentável no Brasil. Todavia, o motorista sentirá a diferença no bolso e isso precisa ficar claro.
Impressões: híbrido Jaecoo 5 aposta em potência superior
Em meio à acirrada disputa no segmento de SUVs compactos, a Omoda & Jaecoo amplia sua ofensiva no mercado brasileiro com o lançamento do híbrido compacto pleno Jaecoo 5. Trata-se do quinto modelo da fabricante chinesa, que integra a estratégia de expansão do grupo Chery no País.
Com 4.380 mm de comprimento e entre-eixos de 2.620 mm oferece espaço bem razoável para cinco ocupantes, além de porta-malas de 410 L (kit de reparo no lugar de estepe), mas sem indicar se pelo padrão VDA mais aceito. Aposta em uma lista ampla de equipamentos que inclui teto panorâmico, seis airbags, bancos dianteiros elétricos e ventilados, sistema de som Sony, câmera com visão de 540 graus, sensor de estacionamento dianteiro e um pacote amplo de recursos de segurança e assistência ao motorista.
Entre os híbridos compactos destaca-se pelos maiores números de potência e torque combinados do mercado: 224 cv e 30,1 kgf·m. Com o tanque de gasolina de 51 litros apresenta alcance em cidade de 791 km e em estrada 699 km. Consumo no padrão Inmetro de 15,5 km/L e 13,7 km/L, respectivamente.
Na avaliação inicial de São Paulo à Serra do Japi, em trechos urbano e rodoviário, os motores elétrico e a combustão chamaram atenção pelo desempenho e, em destaque, por retomadas surpreendentes que permitem ultrapassagens sem dificuldades. O fabricante informa aceleração de 0 a 100 km/h em muito bons 7,9 s.
Em razão do desempenho forte, funcionamento suave e a praticidade de não depender de tomada, o Jaecco 5 reúne boas credenciais para disputar espaço entre os SUVs híbridos compactos do mercado brasileiro. São duas versões: Comfort, por R$ 159.990 e Prestige, por R$ 184.990 (preços pós os promocionais de lançamento).
Teste: Captiva EV Premier destaca espaço interno e estilo
Importado inicialmente da China e produzido apenas a partir de kits parcialmente desmontados (SKD) em Horizonte (CE) desde junho último, o SUV médio elétrico da Chevrolet destaca-se pelo estilo. Desenho frontal ousado, sempre teto preto com abertura elétrica, rodas de 18 pol. chamativas e traseira mais discreta não escondem sua origem. É claramente diferente do padrão da marca no Brasil, herdado em grande parte dos modelos da sua ex-subsidiária alemã Opel. O entre-eixos garante espaço confortável para cinco adultos.
Dimensões (mm): comprimento, 4.745; entre-eixos, 2.800; largura, 1.890 (2.140 com espelhos); altura, 1.670. Volume porta-malas: 403 L; Massa: 1.800 kg. Bateria: 60 kW⋅h. Motor: potência, 201 cv; torque, 31,6 kgf·m. Alcance médio (Inmetro): 304 km. Tração dianteira. Aceleração 0 a 100 km/h: 9,9 s.
O interior identifica-se com o tradicional estilo chinês, a começar pelo volante, que procura inovar, mas parece um pouco estranho. Em compensação materiais de acabamento são de boa qualidade, os bancos dianteiros têm firmeza adequada e a regulagem dos espelhos retrovisores permanece no puxador da porta, sem seguir o modismo de transferi-la para o volante.
Tela multimídia destaca-se pelas 15,6 pol. com ótima resolução, mas o pareamento com telefones celulares é feito por cabo apenas e as duas entradas USB-C exigem certo contorcionismo para alcançá-las; há também carregamento do celular por indução. Espaço para pernas no banco traseiro muito bom. Volume do porta-malas não se destaca entre os concorrentes, tem estepe temporário, todavia falta uma cobertura para a bagagem. Difícil é acionar o muito útil auto-hold de imobilização e liberação automáticas do freio de estacionamento. Há que procurar na tela multimídia e achar o estranho termo “tração automática do veículo”.
Quanto ao desempenho, mostrou agilidade no trânsito urbano, ao considerar seu porte e massa. Comportamento em curvas poderia ser um pouco mais firme. Ultrapassagens e retomadas em estradas não são tão entusiasmantes como em outros elétricos do mesmo segmento, contudo o Captiva EV dispõe de bons freios. Alcance está no mínimo aceitável para viagens de média distância.
Preço: R$ 219.990.
Espuma de Matriz Metálica torna os carros mais seguros
Este novo material é fruto de pesquisas avançadas na Universidade Estadual da Carolina do Norte (UECN), nos EUA. Batizado de Espuma de Matriz Metálica (CMF, em inglês) reduz progressivamente a energia dos impactos entre para-choque e chassi. Assim, transmite uma carga menos severa ao compartimento de passageiros.
Conforme lembrou muito bem o site brasileiro Inovação Tecnológica, até algumas décadas atrás os para-choques dos automóveis eram de aço de alta resistência. O pensamento vigente era de que a carroceria ficava mais bem protegida. Todavia, a quase total ausência de absorção da energia dos impactos significava que motorista e passageiros acabavam por sofrer ferimentos de alta gravidade e muitas vezes fatais, devido à elevada desaceleração imposta aos seus corpos.
A recente descoberta demonstrou que se trata de um grande avanço em termos de segurança passiva. “A CMF é mais leve que os metais convencionais, sem sacrificar a resistência. Nosso trabalho aqui demonstrou que essa estrutura avançada permite absorver melhor a energia dos impactos de alta velocidade”, relatou a professora Afsaneh Rabiei, da UECN. E completou: "É importante, porque reduz a taxa de desaceleração de um veículo durante uma colisão. E uma desaceleração mais lenta melhora a segurança de todos os ocupantes."
Porém, ainda não há previsão de quando será possível ter este material por um preço compatível ou que não aumente muito os custos de fabricação.
Texto: Fernando Gusen | fernando@festurisgramado.com.
Foto: Festuris/Divulgação
O turismo está mudando e quem trabalha no setor precisa acompanhar essa transformação antes que ela chegue ao mercado. É com essa provocação que o Meeting Festuris, palco de conteúdo da 38ª edição do Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado, reúne especialistas, empresários, lideranças e personalidades para discutir os temas que já estão impactando a forma de viajar, consumir, empreender e fazer negócios.
Com o conceito “Relações reais que constroem o futuro”, o Meeting acontece nos dias 13 e 14 de novembro, em Gramado (RS), e propõe duas manhãs de imersão em ideias capazes de ultrapassar o palco e chegar à prática profissional. A programação foi construída para quem não quer apenas saber o que está acontecendo no turismo, mas deseja entender o que vem pela frente e como se preparar para isso.
Entre os assuntos que prometem provocar o público está uma das perguntas mais inquietantes do momento: a inteligência artificial vai substituir as pessoas no turismo? O debate “A IA Vai Substituir as Pessoas no Turismo? A Inteligência Emocional Responde” coloca tecnologia e humanidade frente a frente e convida o setor a refletir sobre aquilo que nenhuma ferramenta consegue reproduzir da mesma maneira: relações, sensibilidade, escuta e conexão.
E se a tecnologia redefine processos, a inclusão redefine a experiência. A programação de abertura traz o debate “Além da Acessibilidade Física – O Desafio da Inclusão Neurodiversa no Turismo”, ampliando a discussão sobre como destinos, empresas e profissionais podem construir experiências verdadeiramente acolhedoras para diferentes públicos.
Outro tema que ganha espaço é o wellness tourism, tendência que transforma saúde, bem-estar e qualidade de vida em elementos cada vez mais relevantes para a escolha de destinos e experiências. Na sequência, o Meeting mergulha em um dos segmentos mais desejados do mercado: o turismo de luxo, discutindo a “Conexão Humana por trás da Exclusividade” e mostrando que, em um mercado de alto padrão, personalização e relacionamento podem ser tão importantes quanto o produto oferecido.
No segundo dia, o palco amplia ainda mais o olhar sobre os negócios. “Confiança como Ativo – O impacto do Compliance na Experiência Turística” coloca em pauta um ativo muitas vezes invisível, mas decisivo para empresas e destinos: a confiança. Já o debate “Mulheres Viajantes e Segurança: Construindo Destinos mais Acolhedores” aborda um aspecto essencial para a evolução da atividade turística: a construção de ambientes nos quais viajar seja, além de prazeroso, uma experiência segura.
Para quem acompanha os movimentos da economia e quer entender como eles chegam ao turismo, o painel “Brasil em Transformação: Economia, Marca País e o Futuro dos Negócios” reúne Bruno Reis, presidente da Embratur, e Ana Maria Berto, CEO da Orinter Tour & Travel, com mediação da jornalista Giane Guerra. A discussão conecta cenário econômico, posicionamento internacional e oportunidades para o setor turístico brasileiro.
E há espaço, ainda, para olhar para o turismo pelo viés da experiência e do entretenimento. O painel “Turismo de Entretenimento” encerra a programação mostrando como atrações, gastronomia e experiências podem se transformar em produtos turísticos capazes de movimentar destinos e gerar novos negócios.
Conteúdo para sair da zona de conforto
Mais do que uma sequência de palestras, o Meeting Festuris aposta em uma programação que cruza diferentes áreas do conhecimento — de marketing, administração e economia a liderança, empreendedorismo, inovação, sustentabilidade e psicologia.
É justamente essa diversidade que transforma o palco em uma oportunidade de atualização para profissionais que precisam tomar decisões em um mercado cada vez mais dinâmico.
A proposta é simples: investir uma manhã em conhecimento pode significar economizar meses tentando entender sozinho para onde o mercado está indo. E, em um setor baseado em pessoas, estar no mesmo ambiente que grandes nomes, empresários e profissionais do turismo também significa ampliar a rede de contatos e criar oportunidades que não acontecem apenas em uma palestra.
Por isso, o Meeting é pensado para quem entende que tempo é investimento e conhecimento é ferramenta de negócio. Além do acesso ao conteúdo do Meeting, o ingresso inclui a participação na Feira de Negócios do Festuris e nos demais palcos de conteúdo da feira, além de certificado de participação.
Mais informações com Júlia Bervanger no número (54) 99951.7525.
PROMOÇÃO - Até o dia 30 de setembro, quem adquirir o ingresso para o Meeting Festuris pelo valor integral estará concorrendo a um pacote de experiências em Gramado, que inclui dois ingressos para o Natal Luz, um jantar para duas pessoas no Edelweiss Restaurant e duas entradas para o Garden Park.
Tarcisio Dias
30 | SETEMBRO | 2026
O carro que "não gasta energia": um eixo motor e o outro, gerador
Usar um eixo para movimentar o veículo e o outro para gerar eletricidade parece criar um carro capaz de recarregar a própria bateria enquanto roda. A ideia é sedutora, mas esconde uma pergunta fundamental: de onde vem a energia que movimenta o gerador?
Imagine um carro elétrico com motor nas rodas dianteiras e um gerador ligado permanentemente às traseiras. Enquanto a frente impulsiona o veículo, a traseira devolve eletricidade para a bateria. Parece que encontramos a solução para a autonomia: andar e carregar ao mesmo tempo. Só existe um problema — o gerador não produz energia gratuitamente. Ao começar a gerar eletricidade, ele também começa a frear o carro. E é justamente aí que uma ideia aparentemente perfeita encontra as leis da física. Entender essa diferença ajuda a explicar não apenas por que o “carro que não gasta energia” não funciona, mas também por que a frenagem regenerativa é uma das tecnologias mais eficientes dos veículos eletrificados modernos.
Imagine a seguinte arquitetura: um automóvel elétrico possui um motor ligado ao eixo dianteiro, responsável por movimentar o veículo, enquanto o eixo traseiro é conectado a um segundo motor elétrico funcionando permanentemente como gerador.
A bateria alimenta o motor dianteiro. O carro começa a andar. As rodas traseiras também giram e movimentam o gerador.
A eletricidade produzida atrás retorna para a bateria.
À primeira vista, a lógica parece impecável.
Se o motor dianteiro retira energia da bateria e o gerador traseiro consegue devolver parte — ou talvez quase toda — essa eletricidade, seria possível imaginar um automóvel cuja bateria demorasse muito mais para descarregar.
Levando o raciocínio ao extremo, poderíamos chegar ao fascinante “carro que não gasta energia”.
Mas existe uma peça faltando nessa conta.
Enquanto as rodas traseiras simplesmente acompanham o movimento do veículo, elas apresentam principalmente as perdas normais associadas aos pneus, rolamentos e demais componentes mecânicos.
A situação muda quando conectamos essas rodas a um gerador e começamos a exigir eletricidade dele.
Para gerar corrente elétrica é necessário aplicar torque mecânico ao gerador.
E aparece uma consequência fundamental do eletromagnetismo: ao produzir eletricidade, a máquina elétrica desenvolve um torque resistente, contrário ao movimento que a está acionando.
Em linguagem simples, o gerador passa a funcionar como um freio.
Quanto mais eletricidade tentamos retirar dele, maior tende a ser o esforço necessário para mantê-lo girando.
Portanto, o motor dianteiro deixa de ter apenas a missão de vencer resistência aerodinâmica, resistência ao rolamento, inclinações e demais perdas naturais do deslocamento.
Ele também precisa vencer a resistência criada pelo gerador traseiro.
É justamente nesse ponto que o suposto ganho desaparece.
Vamos utilizar um exemplo simplificado. Imagine que, mantendo determinada velocidade, o automóvel precise de 20 kW de potência mecânica nas rodas para vencer o ar, o atrito dos pneus e todas as demais resistências ao movimento.
Agora ligamos o gerador traseiro e exigimos dele o equivalente a 10 kW de potência mecânica.
O eixo dianteiro passa a precisar fornecer aproximadamente os 20 kW necessários para movimentar o automóvel mais os 10 kW exigidos pelo gerador.
A necessidade mecânica sobe para perto de 30 kW. Se todo o processo fosse perfeito, os mesmos 10 kW retirados pelo gerador poderiam voltar integralmente para a bateria.
Mas nenhuma conversão real possui 100% de eficiência.
Existem perdas no motor dianteiro, no inversor, nos cabos, no gerador traseiro, novamente na eletrônica de potência e finalmente no processo de carregamento da bateria.
Suponhamos, apenas para facilitar o raciocínio, que dos 10 kW mecânicos retirados pelo gerador somente 8 kW consigam efetivamente retornar à bateria.
O motor precisou fornecer os 10 kW adicionais, mas a bateria recebeu apenas 8 kW de volta.
Os 2 kW restantes não desapareceram. Foram transformados principalmente em calor.
E ainda existem as perdas do próprio sistema de tração dianteiro.
Quanto mais energia tentarmos circular artificialmente dentro desse ciclo, mais oportunidades criamos para perdê-la.
Mesmo que conseguíssemos equipamentos extraordinariamente eficientes, ainda enfrentaríamos o mesmo problema.
Imagine uma máquina capaz de devolver 99% da energia recebida.
Ainda perderíamos 1%.
Depois de vários ciclos, essas pequenas perdas continuariam sendo acumuladas.
Para o sistema funcionar indefinidamente sem receber energia externa, seria necessário recuperar 100% de tudo o que foi gasto — inclusive a energia perdida pela resistência do ar, deformação dos pneus, rolamentos, aquecimento dos componentes e sistemas auxiliares.
Isso entraria em conflito com princípios fundamentais da termodinâmica.
A Primeira Lei da Termodinâmica determina que energia não pode ser criada do nada.
A Segunda Lei explica por que as transformações reais de energia inevitavelmente envolvem irreversibilidades e perdas de energia útil, normalmente convertidas em calor.
Por isso, um automóvel capaz de alimentar integralmente a própria propulsão usando apenas um gerador movimentado por suas próprias rodas seria, na prática, uma variação da antiga ideia de movimento perpétuo.
E movimento perpétuo continua pertencendo ao campo das impossibilidades físicas.
Aqui aparece a parte interessante. Um veículo elétrico pode efetivamente produzir eletricidade enquanto está em movimento.
E faz isso todos os dias. É a chamada frenagem regenerativa. A diferença está na origem da energia.
Quando aceleramos um veículo, fornecemos energia para aumentar sua velocidade. Parte dessa energia fica armazenada na forma de energia cinética.
Quando chega o momento de diminuir a velocidade, essa energia precisa ir para algum lugar.
Em um automóvel convencional, os freios por atrito transformam grande parte dela em calor nos discos e pastilhas.
O carro elétrico possui uma alternativa.
Durante a desaceleração, o motor pode mudar sua função e trabalhar como gerador. As rodas passam a movimentar a máquina elétrica, que transforma parte da energia cinética do carro novamente em eletricidade e a envia para a bateria.
Agora existe uma diferença fundamental: o veículo precisava diminuir de velocidade de qualquer maneira.
O efeito de frenagem provocado pelo gerador deixou de ser um problema e passou a ser exatamente aquilo que desejamos.
A energia que seria desperdiçada nos freios passa a ser parcialmente recuperada.
Essa distinção é decisiva. Na regeneração, o carro não está produzindo uma energia nova. Está recuperando parte de uma energia que já havia sido utilizada anteriormente para acelerá-lo.
O mesmo raciocínio vale para uma descida.
Quando um elétrico desce uma serra utilizando regeneração e aumenta a carga da bateria, pode parecer que está produzindo energia gratuitamente.
Não está.
A fonte naquele momento é a energia potencial gravitacional associada à diferença de altitude. A gravidade movimenta o veículo ladeira abaixo e parte dessa energia pode ser transformada em eletricidade.
Em algum momento, entretanto, foi necessário elevar aquele automóvel até uma altitude maior. A conta energética continua existindo.
Aqui é preciso tomar cuidado com percentuais apresentados isoladamente. Não existe um número único dizendo que todo elétrico recupera determinada porcentagem da energia durante a frenagem.
A quantidade efetivamente recuperada depende da velocidade, intensidade da desaceleração, capacidade do motor-gerador, potência máxima aceita pela bateria, temperatura, estado de carga e estratégia eletrônica do veículo.
Quando a bateria está muito carregada, por exemplo, o automóvel pode limitar a regeneração.
Em uma frenagem muito intensa, o sistema elétrico pode não conseguir produzir sozinho toda a desaceleração necessária, exigindo a participação dos freios por atrito.
E em velocidades muito baixas a capacidade regenerativa também diminui.
Como referência, o Departamento de Energia dos Estados Unidos estima que, no ciclo combinado utilizado pela EPA, um veículo elétrico típico consegue recuperar aproximadamente 22% da energia de forma líquida por meio da frenagem regenerativa. O mesmo estudo aponta eficiência energética global entre aproximadamente 87% e 91% quando essa recuperação é considerada. (The Department of Energy's Energy.gov)
Isso não significa que somente 22% da energia disponível em uma determinada frenagem possa ser convertida. O número representa o impacto líquido da regeneração dentro daquele ciclo completo de utilização.
Por isso é perigoso dizer simplesmente que “um elétrico recupera 60%, 70% ou 80% da energia”.
A pergunta correta é: 60% ou 70% de qual energia, medida em qual ponto e sob quais condições?
A própria natureza do trânsito urbano favorece esse sistema.
Em uma estrada com velocidade praticamente constante, há poucas oportunidades para recuperar energia porque o automóvel precisa continuar se deslocando.
Já no trânsito urbano existem acelerações e desacelerações frequentes.
Cada vez que o motorista reduz a velocidade, surge uma nova oportunidade para transformar parte da energia cinética em eletricidade.
O Departamento de Energia dos Estados Unidos destaca justamente que veículos elétricos tendem a aproveitar melhor a regeneração em condições urbanas, nas quais as paradas são mais frequentes. (Dados de Combustíveis Alternativos)
É uma situação curiosa porque automóveis tradicionais costumam sofrer bastante no anda-e-para das cidades, enquanto os elétricos conseguem transformar parte dessas desacelerações em oportunidade de recuperação energética.
Isso não muda a física. Pode parecer que as rodas traseiras de um carro com tração dianteira possuam energia disponível simplesmente porque estão girando.
Mas elas estão girando porque o restante do veículo está puxando essas rodas pela estrada.
A energia necessária para movimentá-las veio originalmente do motor dianteiro.
Ao adicionar carga elétrica ao eixo traseiro, aumentamos a força necessária para puxá-lo.
É semelhante a pedalar uma bicicleta com um dínamo. Quando o dínamo está praticamente sem carga, pedalar é relativamente fácil.
Quando ele começa a fornecer energia para um equipamento, aparece uma resistência perceptível.
A eletricidade não surgiu do movimento gratuitamente. Ela veio do esforço adicional aplicado pelo ciclista.
No automóvel acontece exatamente o mesmo fenômeno, apenas em escala muito maior e com sistemas eletrônicos muito mais sofisticados.
Esse é talvez o aspecto mais elegante da frenagem regenerativa. A engenharia não encontrou uma maneira de criar energia. Encontrou uma maneira extremamente inteligente de desperdiçar menos.
Nos freios convencionais, reduzir a velocidade significa deliberadamente transformar energia mecânica em calor.
No sistema regenerativo, uma parcela dessa energia consegue fazer um caminho diferente:
movimento → eletricidade → bateria → movimento novamente.
Cada uma dessas transformações possui perdas.
Mesmo assim, recuperar parte da energia é muito melhor do que transformá-la integralmente em calor nos freios.
Essa é a diferença entre eficiência energética e movimento perpétuo.
Existe uma forma de fazer um veículo ganhar energia enquanto continua trafegando em velocidade constante: fornecer energia externa a ele.
Ela pode vir de uma rede elétrica, de recarga por indução incorporada à pista, de painéis solares, de um motor a combustão funcionando como gerador ou de qualquer outra fonte externa ao ciclo fechado entre rodas e bateria.
Nesse caso não existe paradoxo.
A energia adicional possui uma origem identificável.
O problema surge somente quando imaginamos que o próprio deslocamento do veículo poderia fornecer toda a energia necessária para continuar produzindo esse deslocamento indefinidamente.
Não pode.
UM MILHÃO DE ELETRIFICADOS – O Brasil atingiu em 24 de setembro de 2026 a marca histórica de 1 milhão de veículos leves eletrificados emplacados desde 2012, considerando elétricos puros, híbridos plug-in e híbridos com tração elétrica na série da ABVE. Somente entre janeiro e agosto de 2026 foram registradas 328.477 unidades, mostrando como a expansão se acelerou nos últimos anos. (Mecânica Online)
INDÚSTRIA PERNAMBUCANA – O Polo Automotivo Stellantis de Goiana (PE) alcançou 300 mil veículos exportados desde 2015. Renegade, Compass, Commander, Toro e Rampage são produzidos no complexo, que possui capacidade instalada para até 280 mil unidades anuais e já enviou automóveis para mais de 20 países. A Fiat Toro responde sozinha por mais de 78 mil unidades exportadas. (Mecânica Online)
HÍBRIDOS FLEX NACIONAIS – A Toyota iniciou uma nova fase da reconstrução da fábrica de motores de Porto Feliz (SP), começando pela retomada da fundição, inicialmente preparada para cerca de 400 motores por dia. A unidade reconstruída terá papel importante na ampliação da produção de motores híbridos flex e deverá alcançar operação plena em 2028. (Mecânica Online)
RECARGA ACIMA DE 2 MW – A Geely apresentou uma tecnologia de carregamento com potência de pico anunciada de até 2.250 kW. Em teste divulgado pela empresa, um Lynk & Co atingiu pico de 1.093 kW e passou de 10% a 97% de carga em 8 minutos e 40 segundos. O avanço mostra que a nova fronteira dos elétricos envolve não apenas baterias maiores, mas também gerenciamento térmico e capacidade para receber potências extremamente elevadas. (Mecânica Online)
CARRO QUE AJUDA A DESENVOLVER O PRÓXIMO CARRO – A BMW passou a utilizar, mediante autorização dos proprietários na Europa, dados provenientes de veículos de clientes para aperfeiçoar futuros sistemas ADAS. Informações de câmeras, sensores e dinâmica do automóvel podem ser coletadas em situações específicas, colocando ao mesmo tempo inteligência artificial, segurança veicular, consentimento e privacidade no centro do desenvolvimento automotivo. (Mecânica Online)
Frenagem regenerativa: Sistema no qual o motor elétrico passa a funcionar como gerador durante a desaceleração, transformando parte da energia cinética do veículo em eletricidade armazenada novamente na bateria.
Energia cinética: Energia associada ao movimento de um corpo. Quanto maiores a massa e a velocidade do automóvel, maior a energia que precisa ser retirada para fazê-lo diminuir de velocidade.
Torque resistente: Força de rotação contrária ao movimento produzida quando um gerador elétrico é submetido a uma carga. É justamente essa reação que faz a geração de eletricidade exigir esforço mecânico.
Lei de Lenz: Princípio do eletromagnetismo segundo o qual a corrente induzida produz efeitos que se opõem à variação que a originou. Ajuda a compreender por que um gerador carregado oferece resistência ao movimento.
Eficiência energética: Relação entre a energia útil obtida e aquela fornecida ao sistema. Nenhum motor, inversor, bateria ou gerador real converte 100% da energia recebida em energia útil.
Energia potencial gravitacional: Energia associada à posição de um objeto em relação à altura. Em uma descida, parte dessa energia pode ser convertida em movimento e recuperada pela frenagem regenerativa.
Movimento perpétuo: Conceito hipotético de uma máquina capaz de funcionar indefinidamente sem receber energia externa. Uma máquina real desse tipo é incompatível com as leis da termodinâmica.
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