O mercado automotivo brasileiro atravessa um momento de inflexão estrutural. Em 2025, para cada carro zero quilômetro vendido no país, cerca de sete veículos usados ou seminovos trocaram de mãos. Uma proporção inédita, que reposiciona o papel do 0km dentro da cadeia automotiva e redefine as estratégias de montadoras, concessionárias, plataformas digitais e agentes financeiros.
Segundo dados da Fenauto, o segmento de usados e seminovos registrou mais de 18,5 milhões de transferências em 2025, um recorde histórico. No mesmo período, o mercado de veículos novos somou 2,69 milhões de vendas. A discrepância escancara uma realidade já observada globalmente, mas que no Brasil atingiu um patamar singular.
“Estamos falando de um volume gigantesco, que move dezenas de milhões de decisões anuais de compra, venda, troca e financiamento”, afirma J. R. Caporal, CEO da Auto Avaliar. Para ele, o mercado de usados deixou de ser complementar e passou a ser o verdadeiro coração da mobilidade individual no país.
Os dados de usados englobam o chamado efeito Renave (Registro Nacional de Veículos em Estoque), que acabou por transformar a venda informal em registro estatístico. “O efeito soma 1,3 milhão de transações, o que corresponde a 35% do crescimento. Mesmo assim, quando fazemos o ajuste, vemos que o mercado de usados aumentou entre 8% e 10% em 2025, o que é um percentual bastante elevado”, afirma. A perspectiva para 2026 é de um incremento de 9%.
Um dos principais vetores dessa transformação é o encarecimento acelerado do veículo zero quilômetro. Em 2021, os modelos de entrada custavam pouco acima de R$ 53 mil. Em janeiro de 2026, o tíquete médio desses mesmos modelos já se aproxima de R$ 80 mil, uma alta entre 46% e 51% em cinco anos, sem considerar o impacto dos juros no financiamento.
“O primeiro degrau do 0km subiu de forma abrupta. O seminovo virou a rota natural de quem busca mobilidade sem transformar o carro em um compromisso financeiro desproporcional”, avalia Caporal. O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas ganha contornos mais agudos em um país de renda média comprimida e crédito ainda caro.
Giro mais rápido e tíquete médio elevado no 0km
Apesar do preço mais alto, o mercado de veículos novos mostrou sinais de eficiência comercial em 2025. O Estudo de Preços de Veículos Zero Km (PVZ), realizado pela MegaDealer com dados da Auto Avaliar, indica que o tíquete médio do 0km chegou a R$ 174.621 em dezembro, considerando todas as categorias.
Ao mesmo tempo, o giro médio de estoque caiu de 36 para 32 dias, sinalizando maior velocidade de vendas nas concessionárias. O levantamento analisou mais de 700 mil operações de venda, oferecendo uma radiografia precisa da dinâmica comercial do setor.
De acordo com Fábio Braga, Country Manager da MegaDealer, dois fatores foram decisivos para esse desempenho: a entrada de novas marcas chinesas, especialmente no segmento de eletrificados, e a redução do IPI, em vigor desde julho de 2025. “A política tributária aumentou a competitividade, sobretudo nos segmentos de entrada, ao mesmo tempo em que novos players pressionaram preços e margens”, explica.
Usados aquecidos, preços recordes e rentabilidade elevada
Se o 0km gira mais rápido, o mercado de usados e seminovos opera em pleno aquecimento. O Estudo de Performance de Veículos Usados (PVU), também da MegaDealer em parceria com a Auto Avaliar, mostra que o tíquete médio dos usados atingiu R$ 90.892 em dezembro, patamar recorde.
O giro de estoque caiu de 39 para 37 dias, enquanto o ROI médio do segmento chegou a 62%, um nível elevado para padrões do varejo automotivo. “O mercado entra em 2026 mais competitivo, profissionalizado e financeiramente atrativo”, destaca Braga.
O 0km como ponta — não como fim da cadeia
Nesse novo desenho, o carro zero quilômetro deixa de ser o centro da estratégia e passa a ser apenas o início do ciclo de vida do veículo. Para Caporal, montadoras que ignoram o valor residual de seus modelos estão abrindo mão do controle sobre o futuro da própria marca.
“Organizar programas de recompra, sustentar preços de seminovos e controlar o valor residual não é opcional. É isso que protege a rede de concessionárias, reduz volatilidade e, no limite, sustenta o preço do carro novo”, afirma. Segundo ele, quando essa gestão é negligenciada, o mercado informal assume esse papel de forma desorganizada e destrutiva para o valor da marca.
Um mercado maior, mais complexo e mais estratégico
Os dados consolidados indicam que o mercado automotivo brasileiro se expandiu e se tornou mais complexo. O volume de transações cresce, o papel do usado se fortalece e a eficiência operacional passa a ser tão relevante quanto o lançamento de novos modelos.
Mais do que vender carros, o setor entra em uma fase em que gestão de dados, controle do ciclo de vida do veículo, políticas de recompra e integração entre novo e usado serão determinantes para a competitividade. “Em um mercado onde sete usados circulam para cada 0km, ignorar essa lógica não é apenas um erro estratégico é abrir mão do próprio futuro”, alerta Caporal.




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