Historicamente, os túneis de vento são usados ao final de um projeto para validação de design, quando pouco pode ser alterado. A Ford inverteu esse processo, usando o túnel de vento como ferramenta de desenvolvimento desde o início do projeto, operando com a urgência de uma equipe de pit stop.
A construção do veículo de teste foi feita com um sistema modular do tipo “Lego”, que permite trocar em questão de minutos peças impressas em 3D e usinadas – desde protetores de chassi até a grade frontal e suspensão.
“Testamos milhares de componentes impressos em 3D, incluindo versões da suspensão e das unidades de tração que ainda nem existiam como protótipos funcionais. A grande precisão dessas peças, em frações de milímetro comparado às simulações, nos permitiu desenvolver uma compreensão mais profunda das mudanças nas forças verticais, longitudinais e laterais e como cada detalhe impacta na autonomia e eficiência no mundo real”, explica Saleem Merkt.
Esse ritmo acelerado permitiu à equipe perseguir as metas de custo, eficiência da bateria e autonomia, além de reunir dados para aprimorar a capacidade de simulação. Mas testar mais rápido é apenas metade da batalha. Era preciso também pensar mais rápido.
Para processar o enorme fluxo de dados dos sensores, o kit de ferramentas digitais aerodinâmicas foi reconstruído do zero, gerando um fluxo contínuo de informações e visualizações personalizadas. Toda a equipe podia ver os dados do túnel de vento em tempo real e compará-los com as simulações. E, ao contrário da Fórmula 1, não havia regras para limitar o processamento, a quantidade de horas ou o tipo de supercomputador que poderia ser usado.
“Essas ferramentas digitais fazem mais do que apenas nos acelerar – elas estabelecem a base para o futuro design impulsionado por IA”, destaca o especialista. “Elas permitem identificar exatamente as mudanças com maior impacto no custo da bateria e na autonomia, ajudando a entender o porquê por trás da física. Afinal, o ar é invisível.”
Esse kit de ferramentas inspirado na F1 permitiu encontrar ganhos aerodinâmicos que poderiam permanecer ocultos, como os três exemplos a seguir:
Superfície Virtual – A linha do teto foi esculpida cuidadosamente para liberar o ar em alta velocidade em perfil de gota, que se estende sobre a caçamba. Isso cria uma “superfície virtual”, permitindo que o ar passe inteiramente por cima da caçamba. Para o ar, ela não é mais uma picape, mas uma silhueta aerodinâmica e elegante.
Espelho de 2,4 km – A inovação geralmente vem da simplificação. Em vez de usar motores separados para o ajuste do vidro e o rebatimento elétrico, essas funções foram fundidas em um único atuador. Com isso, foi possível reduzir toda a peça em mais de 20% e adotar um formato mais aerodinâmico, que adiciona cerca de 2,4 km de autonomia. Não parece muito, mas esses ganhos se somam.
Assoalho invisível – A parte inferior de uma picape é tipicamente um pesadelo aerodinâmico. O seu assoalho foi tratado como um carro de corrida, com parafusos embutidos em cavidades minúsculas e chassi meticulosamente projetado para dirigir o ar ao redor dos pneus dianteiros e da suspensão. Embora não seja possível fazer a turbulência do pneu desaparecer totalmente, é possível gerenciá-la. Guiando a turbulência do pneu dianteiro diretamente para os pneus traseiros, evita-se que os pneus traseiros criem seu próprio “buraco” no vento, com um ganho adicional de 7,2 km de autonomia.
A nova picape foi projetada como um sistema único e integrado. Para atender às metas de autonomia e custo, a carroceria teve de ser meticulosamente esculpida desde o início. Se fosse usada simplesmente a carroceria de uma picape existente, a física não funcionaria.
“Se a picape média a gasolina com aerodinâmica mais eficiente existente hoje nos EUA fosse equipada com a mesma bateria, acreditamos que a nossa nova picape elétrica teria quase 80 km, ou 15% a mais de autonomia. E uma melhoria de 30% em velocidade na estrada”, afirma Merkt.
O veículo agora está sendo testado em pistas e ruas do mundo real para garantir que cada detalhe funcione perfeitamente, trazendo aprendizados para aperfeiçoar a produção. O fluxo de ar gerado por meio desse trabalho não pode ser visto, mas o cliente certamente sentirá a diferença ao dirigir.




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