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domingo, 1 de março de 2026

Professora baiana é laureada no Canadá

Foto: Baiano Fotografia/divulgação

Lícia Soares de Souza, professora emérita da UNEB, receberá a medalha da Ordre des Francophones des Amériques, em 17 de março próximo, uma condecoração do Conselho Superior da Língua Francesa, concedida àqueles e àquelas que se destacaram no ensino da língua francesa nas Américas, assim como na divulgação da cultura quebequense. 

O Núcleo de Estudos da UNEB foi uma mola propulsora para o desenvolvimento de tantas atividades relativas à língua francesa, principalmente quando se instalou na UNEB a Associação Brasileira de Estudos Canadenses - ABECAN-  que nacionalizou e internacionalizou a pesquisa interamericana na universidade baiana. 

Todos sabem que a UNEB foi criada por Edvaldo Boaventura , segundo o modelo da Universidade multicampi de Québec, de tal forma que, no brasão da UNEB, encontra-se a flor de lis do brasão das Universidades do Québec.  

Com  a ABECAN, foram 4 congressos internacionais em Salvador, envolvendo todas as universidades do estado que acolheram pesquisadores do mundo inteiro. Com o Canada foi possível, falar de comparação de culturas indígenas, diásporas variadas, literatura migrante (com a mobilidade dos negros africanos e haitianos para a metrópole quebequense, Montréal). 

Professores de vários outros países da América Latina juntaram-se aos especialistas canadenses para criar o GT de pesquisa nacional  intitulado Relações literárias interamericanas na ANPOLL. 

As Américas, com suas diversidades e mestiçagens passaram a ser vistas como lugar de encontros de povos diferenciados, em lugar de privilegiar uma cultura hegemônica. A professora Licia criou livros de francês para o Turismo em Salvador, ensinou cultura nórdica quebequense na UNEB e na Aliança Francesa, publicou muitos livros de literatura comparada, inclusive com Jorge Amado e escritores quebequenses.

Junto com o Centro de Estudos Euclydes da Cunha, Licia passou a estudar o massacre de Canudos com estudantes de iniciação científica que passaram a ir visitar o Parque Estadual de Canudos, principalmente durante as secas. Foi ai que a junção de Canudos e o Canada aconteceu. 

Na Universidade do Québec em Montreal, o poeta e geógrafo Jean Morisset lhe aconselhou a averiguar um massacre semelhante que aconteceu entre os índios e os mestiços de índios no oeste quebequense pelos ingleses. Tal acontecimento influenciou o nacionalismo do Québec e a diversidade da cultura da província francófona do Canada.

O aconselhamento a se lançar na cultura canadense se deu após uma palestra da professora sobre a composição complexa do livro de Euclides da Cunha traduzido como Hautes Terres. Ela levou 20 anos trabalhando com os arquivos da UNEB e da UQAM, e produziu o livro “Dois ciclos literários revolucionários : Canudos e a Nação Mestiça do Canada”. 

Seguindo o esquema narrativo de Euclides, ela buscou mostrar a potência telúrica da caatinga que desafia as classificações botânicas de Humboldt,  a geografia de Hegel e Karl Ritter. No Canada , os autores descrevem o ambiente natural das pradarias onde os nativos saiam em caravanas, cantando e dançando, em busca de seus víveres.

Os sistemas de plantacion e de exploração de mão de obra barata nas Américas contribuíram para consolidar a era geológica do Antropoceno, provocando a desertificação ou o esvaziamento do solo, sendo caracterizados como Sertãoceno e Angloceno, zonas onde o “humano” promoveu a precarização da vida.

No livro “Signos em transe, a semiótica de Licia Soares de Souza”, organizado por Taurino Araujo, existem dois blocos de textos fundamentais. Tem aquele que conta a história das atividades francófonas na Bahia com o Nucleo de Estudos Canadenses e aquelas que contam as excursões ao Parque Estadual de Canudos onde constam fotos históricas até com sobreviventes da chamada “guerra” e um arqueólogo  da USP que veio estudar o terreno do sertão desnudado pela seca do rio Vaza-Barris. 

Nessa época, vieram igualmente canadenses da Universidade de Québec em Montréal conhecer as paisagens contadas por Euclides da Cunha e Mário Vargas Llosa (prêmio Nobel de literatura) que projetaram o sertãoceno no cenário representativo de usurpação de territórios dos povos nativos pelos colonizadores para forjar uma civilização destruidora do planeta.

É um trabalho de fôlego. O texto euclidiano traz surpresas sempre; nos leva a pensar no meio ambiente e nas especificidades do Bioma caatinga, único essencialmente brasileiro. É um dos primeiros a denunciar o massacre de Canudos. 

Mas, outros autores são abordados como Vargas Llosa, Oleone Fontes, Guilhon Loures, J.J. Veiga, Julio Chiavenato, Aleilton Fonseca.
Por outro lado, também são abordados  vários autores de Manitoba, Saskatchewan e Québec que retrataram  o aniquilamento da  vida da Nação Mestiça e dos índios no Canada pelos ingleses.

Na Bahia, criaram a dicotomia Euclides vs Antonio Conselheiro; o que forja grupos euclidianos e grupos conselheiristas. Mas o livro de Licia  não se inscreve nas bandeiras “euclidianas ou conselheiristas” , Busca a discussão do Antropoceno e fala do Sertãoceno. 

Fala dos elos de Euclides com o Naturalismo, mostrando as contradições em torno da vida sertaneja, seus famosos oximoros, mas com o exercício que empreende  para quebrar o naturalismo racista e eugênico, chegando mesmo a ironizar as ações de uma Republica frágil e de um exercito genocida. 

Fala da falta de empatia que Euclides teve com o Conselheiro. Mas, vai buscar outros autores, Oleone Fontes, Vargas Llosa, Guilhon Loures etc. que mostraram o papel de liderança socialista de Antonio Conselheiro. 

No Canada, existe também uma cisão entre a luta de Louis Riel, mestiço, letrado, escritor, que esteve à frente das rebeliões e a luta de Gabriel Dumond, mestiço de índios, o capitão das batalhas como Pajeú, mas que não escrevia. Os debates lá são assim, os de Riel e os de Dumond, como aqui temos os de Euclides e os de Conselheiro. 

Para a professora Licia, eles são protagonistas de um mesmo processo e estudar e analisar as investidas argumentativas de Euclides contra Conselheiro e, às vezes contra o sertanejo,  não deve ser uma coisa panfletária;  tem que serem vistas à luz de muitos enfoques literários, históricos e sociológicos contemporâneos para a gente entender o Brasil.  A gente tem de analisar a visita de Gobineau no Segundo Império. Nada de arquivar Euclides, vamos la buscar nele as bases do Brasil atual.

Este livro deverá ser lançado na Bienal de Salvador, final de abril. Faremos uma mesa de debates, e esperamos que o pessoal da Bahia, os pesquisadores de Canudos e do Pos-critica da UNEB estejam todos la, para alinhar  os pensamentos em torno da posse da terra no Nordeste.

Os povos são diferentes, mas os massacres e as opressões são os mesmos. 
Este livro, de uma contemporaneidade absoluta acompanha os fatos da atualidade do mundo, mostrando o quanto as populações nativs ainda tem que batalhar para garantit direito à vida.

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